Gianni Rodari era professor do ensino primário e escritor infanto-juvenil. Como professor e escritor criou uma "gramática" denominada de Gramática da Fantasia, que nada mais é que ensinar às crianças a arte de inventar estórias, são sugeridos diversos exercícios que "espremem" a memória, que brincam com binómios fantásticos, que usam prefixos que dão vida à trivaca, por exemplo, ainda desconhecida para a zoologia ou à biscaneta que escreve a dobrar, ou ainda recordar um jogo difundido em todo o mundo que faz uso da "sintaxe ao acaso", quando por exemplo em vários papelinhos se escreve uma pergunta:
Quem foi?
Onde se encontrava?
O que fazia?
O que disse?
O que disseram as pessoas?
Como acabou?
E cada criança pega num papelinho e escreve a resposta, depois juntas lêm o resultado como se fosse um conto, por exemplo:
"Um morto
na torre de Pisa
fazia meias
disse: quando dá três vezes três?
Todos cantaram o fado
e o jogo acabou empatado."
Dependendo dos exercícios podem-se obter resultados muito estimulantes. Lembrando ainda do jogo surrealista, em que uma criança desenha uma figura e a criança seguinte pega nessa figura para desenhar outra, não com o intuito de completar o primeiro desenho mas o de mudar a direcção, virando-o do avesso. "O resultado final é muito frequentemente um desenho incompreensível, em que não se fixa nenhuma forma, mas todas se atravessam umas nas outras, numa espécie de movimento perpétuo combinatório." Podendo nascer personagens insólitas ou paisagens fantásticas.
Depois viajamos até aos contos populares enquanto matéria-prima, tocando suavemente
nos irmãos Griim, em Andersen ou Collodi, que nos levam por entre contos Alemães num uso primordial da língua, ou por entre a infância de Andersen ou mesmo a história popular toscana.
Foram considerados os libertadores da literatura infantil em relação aos deveres edificantes que lhe tinham conferido. E Rodari vai ensinar-nos como podemos usa-los para criar novas estórias, seja "errando" a conta-las seja contando-as ao contrário ou imaginando o que aconteceu depois, para além da possível "salada" de contos, daqui passamos por entre múltiplas possibilidades criativas que faz deste livro uma peça importante para professores, educadores e pais.
Gianni Rodari 1920-1980, Itália. Publicou a sua primeira obra em 1950. A Gramática da Fantasia é um clássico da literatura pedagógica.
domingo, 1 de agosto de 2010
segunda-feira, 19 de julho de 2010
pensar
Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.
J. Saramago, Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008
J. Saramago, Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008
domingo, 11 de julho de 2010
Elogio do Amor, Godard
Éloge de l'Amour de Godard, 2001 (95m)
Não consigo simplesmente inúmerar as inumeráveis razões porque gostei de ver e rever este filme, passam certamente por questões de consciência critica e/ou de auto-conhecimento e por sentir-me próxima à forte critica aos Estados Unidos da América que de uma forma ou de outra tento combater, não querendo cair em estereótipos mas consciente que embora existam excepções como em tudo, existe uma forte tendência inegável e de culto permanente.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Fernando Calhau, desenho
Confesso que o meu contacto mais directo com a obra de Fernando Calhau deu-se por altura das Convocações I e II realizadas no CAM há poucos anos, as instalações dele diziam-me pouco, mas observava atentamente sobretudo os cadernos onde Fernando Calhau desenhava incessantemente noite após noite, páginas e páginas a negro, e comecei por aqui a querer perceber mais e conhecer mais sobre esta busca incessante, e recentemente no CAM, na exposição de escultura dos anos 60, uma série de gravuras questionam a paisagem albergando um elemento aparentemente estranho, uma linha, que oscila ao longo da série e que me levou à introdução do elemento tempo, questões que me são próximas.
Durante a Convocação I e II deram-se algumas conversas e foram as palavras de Tomás Maia que mais absorvi apontando algumas delas "..partindo sempre do branco até chegar à penúltima mancha negra, todas as noites, anos a fio com o mesmo gesto. Debateu-se sempre sobre a pobreza do gesto Hominídeo, gesto originário da arte...dia mais noite presos no mesmo espaço, mas eu posso atravessar o espaço.. nós estamos numa cápsula, a cápsula permite-nos de dia vivenciar, a experiência da noite, o medo, o medo das Florestas...gesto originário da arte é uma experiência do tempo é uma transposição da noite, gesto que inicia constantemente a sua origem... a arte é resposta do humano a uma convocação especifica... gesto = gerir a morte, gerar vida... reenvio da obra para a sua origem e faz e refaz.. trata-se de inventar um testemunho, para um instante em que já não estaremos presentes..servem para tudo e para nada.. A arte -» originário, gere a vida, -» funerário, gere a morte.. estão nos ritos funerários pré-históricos, os primeiros vistígios artisticos.. a obra de arte seria a exteriorização da alma.. separação total de si mesmo sem morrer...o segredo do artista é viver com uma convocação inata... Nascer perpétuamente. Ser sem fim..." o texto pode ser lido correctamente escrito e estruturado na publicação que saiu mais tarde, "Fernando Calhau Convocação Leituras" da Fundação Calouste Gulbenkian.
O Desenho de Fernando Calhau é me muito especial, a extensão de si no desenho e a sua busca dentro dele, o conhecimento ou o auto-conhecimento, a forma como o desenho pode emergir de nós como presença que vem do interior, o desenho enquanto acto intimo. Alberto Carneiro num dos seus textos diz "Sempre desenhei para me (re)conhecer e deixar fluir as energias do meu ser mais profundo. Só agora o sei, após ter desenhado o meu dentro e tê-lo projectado no fora dos tempos vivenciados como desenho. ...Todos eles são trabalhos sobre ideias, sobre a procura de alguma coisa que busco em mim e para a minha obra. São, de facto, a procura do (re)conhecimento de mim mesmo e da minha obra como projecção de imagens reflectidas no papel sobre o meu ser. Por isso, estes desenhos são espelhos através dos quais me vejo no outro lado de mim. São o espírito e o cosmos do que procuro na minha obra."
Fernando Calhau fez do desenho um acto constante, que tem um corpo denso na sua obra e que nos mostra o desenho enquanto território originário e inquiridor da arte.Consultar: Passageiro Assediado, Assírio Alvim e Fernando Calhau Desenho 1965-2002, Colecção CAM/JAP F. C. Gulbenkian (textos e coordenação Nuno Faria)
quarta-feira, 2 de junho de 2010
À luz da Sombra, Serralves
PELAS SOMBRAS
Documentário realizado por Catarina Mourão.
06 Mar - 13 Jun 2010
“Vem ver a pintura que estou a fazer. Um bocado grande, não cabe em museu nenhum. E tão pequena, tão pequenina que todos que passam por aqui nem dão por isso. Uma tela com forma esquisita. O que vale é que não é preciso esticá-la. Por si só, ela está sempre pronta a receber pinceladas, ventos, estações, chuva, sol....".
Quando eu tinha catorze anos levaram-me a ver um teatro de sombras. Chamava-se Linha do Horizonte e revelava o dia-a-dia de uma mulher, através de sombras projectadas num lençol branco. Essa experiência marcou-me profundamente. Lourdes Castro ficou conhecida como a artista que se ocupa de sombras. Passados vinte anos fui à Madeira conhecer a mulher por detrás daquela sombra. O que “ocupa” hoje Lourdes Castro?
Texto de apresentação ao documentário, Serralves
Este fim-de-semana apanhei o comboio bem cedo em Sta. Apolónia e lá fui eu e o Rui rumo ao Porto, ver a exposição antológica de Lourdes Castro e Manuel Zimbro que estava à nossa espera, desde Março, e no mesmo dia (29 de Maio) às 16h estava marcado o documentário Pelas Sombras, pensávamos nós, infelizmente o Serralves já não é o que era, e a falta de profissionalismo e respeito pelo espectador instalou-se, sem qualquer aviso prévio, o documentário foi suspenso e apenas nos disseram "também não tínhamos qualquer informação, lamentamos", depois disto resolvemos deambular pelo parque e quando subimos o monte falso de Francisco Tropa verificamos que estava vandalizado e abandonado, não podemos deixar Serralves sem passar pelo balcão e pedir o livro onde expressamos todo o nosso desagrado.
Quanto à exposição, para antológica deixa muito a desejar, sem falar que Manuel Zimbro foi reduzido a dois cantos, e nem sombras dos desenhos das sementes que tanto esperava encontrar.
Documentário realizado por Catarina Mourão.
06 Mar - 13 Jun 2010
“Vem ver a pintura que estou a fazer. Um bocado grande, não cabe em museu nenhum. E tão pequena, tão pequenina que todos que passam por aqui nem dão por isso. Uma tela com forma esquisita. O que vale é que não é preciso esticá-la. Por si só, ela está sempre pronta a receber pinceladas, ventos, estações, chuva, sol....".
Quando eu tinha catorze anos levaram-me a ver um teatro de sombras. Chamava-se Linha do Horizonte e revelava o dia-a-dia de uma mulher, através de sombras projectadas num lençol branco. Essa experiência marcou-me profundamente. Lourdes Castro ficou conhecida como a artista que se ocupa de sombras. Passados vinte anos fui à Madeira conhecer a mulher por detrás daquela sombra. O que “ocupa” hoje Lourdes Castro?
Texto de apresentação ao documentário, Serralves
Este fim-de-semana apanhei o comboio bem cedo em Sta. Apolónia e lá fui eu e o Rui rumo ao Porto, ver a exposição antológica de Lourdes Castro e Manuel Zimbro que estava à nossa espera, desde Março, e no mesmo dia (29 de Maio) às 16h estava marcado o documentário Pelas Sombras, pensávamos nós, infelizmente o Serralves já não é o que era, e a falta de profissionalismo e respeito pelo espectador instalou-se, sem qualquer aviso prévio, o documentário foi suspenso e apenas nos disseram "também não tínhamos qualquer informação, lamentamos", depois disto resolvemos deambular pelo parque e quando subimos o monte falso de Francisco Tropa verificamos que estava vandalizado e abandonado, não podemos deixar Serralves sem passar pelo balcão e pedir o livro onde expressamos todo o nosso desagrado.
Quanto à exposição, para antológica deixa muito a desejar, sem falar que Manuel Zimbro foi reduzido a dois cantos, e nem sombras dos desenhos das sementes que tanto esperava encontrar.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
As Aulas do Professor António Reis, Testemunho de Joaquim Sapinho
"Como o António morreu tão depressa, o que eu sinto é que nos encontrámos mesmo por um triz. Podia não o ter encontrado... e ao sentimento de perda junta-se a alegria de, afinal, nos termos encontrado, vivos, sobre esta terra. Penso que este sentimento já é um pensamento reisiano, por causa da tensão dos contrários, por causa da intensidade irresolvida que é a própria vida.
O António foi meu professor na Escola de Cinema, que era no Conservatório, no Bairro Alto, na segunda metade da década de 80 do século XX. Mas as aulas não se passavam apenas nas salas do antigo convento (transformado em conservatório de música e de teatro por Garrett e, quando nós por lá andámos, em escola de cinema...) porque o António podia dizer: hoje vamos ao jardim (do Príncipe Real) e passávamos a tarde a estudar a árvore de borracha ao vento e à luz...a sua vida, a sua história, a sua relação com o mundo. E as aulas continuavam sempre depois das aulas, a passear, na livraria Buchholz a ver livros de pintura, na Cinemateca. As aulas não tinham fim, a vida, o pensamento, a amizade coincidiam com o cinema. Filmar era um contínuo, fazer um filme era tão decisivo como a vida, porque era a mesma coisa. Como se vê pelo Jaime, o António é um cineasta muito preocupado com a história e com a memória, com os documentos, com o que desapareceu, com o que vai desaparecer. Como se fosse um real alucinado por causa da história e da destruição e da reconstrução da história. Mas ao mesmo tempo no Jaime o real é um real totalmente ali, só existe o ali, o imanente, e só existe através das pessoas e das coisas. Portanto, pensar os filmes e fazer os filmes era uma luta com o real, não podia ser colado sobre o real para se poder filmar. Fazer um filme, encontrar um filme, era uma coisa que não se sabia o que era - antes de se fazer. Era uma aventura, não havia nenhum mapa que nos pudesse guiar. Tinham que ser ideias que para serem filmadas quase nem podiam ser nossas quanto mais de outras pessoas ou de livros ou assim... Era um risco, mas tinha uma regra.
O António gostava do Rilke, e eu acho que ele também acreditava que toda a beleza é terrivel. E era muito comovente estar com ele e trabalhar com ele por causa disso, porque não era a beleza pela beleza, mas não podia haver nada sem a beleza.
Vê-se por este texto que eu continuo a falar muito com António. Mas a comunidade dos vivos e dos mortos está no coraçao do pensamento reisiano..."
Testemunho recolhido e editado por Sónia Ferreira, Catalogo Panorama 4ª Mostra do Documentário Português 2010
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quarta-feira, 19 de maio de 2010
O livro negro das cores
Menena Cottin e Rosana Faria
Hoje estava a tirar o pó da estante quando olhei para este livro e pensei que deveria falar dele.
Comprei-o em Março, foi premiado com o mais prestigiado prémio de literatura infantil "Os Novos Horizontes - Bologna Ragazzi" pela extrema sensibilidade que transporta. As ilustrações são negras com relevo e a história fala sobre um menino chamado Tomás, que vê o mundo de outra forma, diferente para muitos e "igual" para outras crianças como ele. Tomás descreve cada côr como ele a "vê", descreve para o menino que vê e para o menino que não vê.
Publicado em Portugal pela editora Bruaá é um livro para usar todos os sentidos e que nos confronta com outra forma de leitura.
Hoje estava a tirar o pó da estante quando olhei para este livro e pensei que deveria falar dele.
Comprei-o em Março, foi premiado com o mais prestigiado prémio de literatura infantil "Os Novos Horizontes - Bologna Ragazzi" pela extrema sensibilidade que transporta. As ilustrações são negras com relevo e a história fala sobre um menino chamado Tomás, que vê o mundo de outra forma, diferente para muitos e "igual" para outras crianças como ele. Tomás descreve cada côr como ele a "vê", descreve para o menino que vê e para o menino que não vê.
Publicado em Portugal pela editora Bruaá é um livro para usar todos os sentidos e que nos confronta com outra forma de leitura.
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