sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Súmula, Herberto Helder




Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

In «Ou o Poema Contínuo», Assírio & Alvim, 2001
fotografia Cláudia Ramos

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

João Penalva, CAM




«Bailarino, pintor, actor, escritor, tradutor, gráfico, curador, cineasta e fotógrafo, Penalva é um contador de histórias encartado, o familiar que correu mundo para partilhar aventuras tão deliciosas que só podem ser reais. O árbitro de um jogo nebuloso que nos arrasta para o universo da escrita e da imagem, transformado num lugar único de enumerações e descrições exaustivas. No fim de contas, "claro que é tudo ficção". Podem não ser reais, mas são genuínas.»

Maria Ramos Rosa Silva, in ionline.pt






quinta-feira, 25 de agosto de 2011

XXXVI. para transformar

_______ sempre que o fotógrafo vem, depois de tentar várias posições, tira uma fotografia. Revela depois a figura apreensível do plátano,              a mulher de braços abertos cujos ramos, principalmente dois, apontam setas para fora das margens; são perturbantes os rodeios do fotógrafo à volta do tronco, chove com placidez, e ele procura, para disparar o olhar da máquina, abrir uma brecha na secura. Por fim, a imagem torna-se fixa, e um desenho orientado para formas vulneráveis de mulher (híbrido de vegetal natureza) fica presente.

     A mulher poderia ter sido desenhada por um trovão iracundo que a esmagasse na rocha, ou banhasse na fonte; poderia ter sido levantada da fotografia pelas patas de um corvo que partiu depois dela; poderia ter sido transformada em líquido pelas poucas gotas de água que infundiu; poderia ter-se fechado em livro e arrumar-se, andando sobre as folhas, na biblioteca.              Mas o facto é que as folhas do cimo eram de uma maciez incontornável e, se o plátano viesse já a florir, o que não estava excluído no pátio dos milagres das imagens,

a mulher quereria ser retida,

retida, sem mais nada,

retida ­­________ pelo imparável disparar da máquina do fotógrafo.





AMIGO e AMIGA curso de silêncio de 2004
Maria Gabriela Llansol

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ana, 1984

Jaime, 1974

António Reis, Programas Curriculares

[Mestre na ESTC]

1. A IMAGEM

1.1 Imagem: polissemia do termo. A imagem icónica. Campo e fora-de-campo: escolher é eliminar. A imagem rectangular não é universal. A tecnologia condiciona a imagem.

1.2 A representação da profundidade.
A imagem, um simulacro. Sistemas de representação não ocidentais. A perspectiva renascentista. A superfície plana como espaço autónomo.

1.3 O trabalho da luz. Fontes físicas – fontes místicas de luz. A organização do espaço como elemento narrativo.

1.4 O instantâneo: uma nova maneira de observar. A fotografia “directa”. O olho móvel e disponível.


Sumário da primeira unidade didáctica da cadeira de “Introdução ao Estudo da Imagem”, do 1.º ano do Curso de Cinema da Escola Superior de Teatro e Cinema (Lisboa). Esta primeira unidade era da responsabilidade de António Reis.
É provável que este esquema base, ainda que com maior desenvolvimento, se repetisse em outras cadeiras leccionadas por António Reis.

***

«Quanto aos programas [curriculares] do António… eram sempre três linhas… Tentei várias vezes convencê-lo a desenvolver os planos de estudo dele, mas não consegui. Dizia-me sempre “isto chega perfeitamente”. (…) A ideia de fazer programas era pôr em causa a sua própria liberdade de “inventor de ensino”, e, portanto, recusou-se sempre a fazer um programa pormenorizado, fugindo completamente às normas».

«magistério intempestivamente oral»

«Embora tenha sido há bastante tempo,
lembro-me de uma pequena folha A4 com quatro pontos
que materializavam o programa que ele organizava num esquema,
e depois era seguido».

Alberto Seixas Santos,
José Bogalheiro
e Pedro Costa
(respectivamente)



in Moutinho, Anabela; Lobo, Maria da Graça (org.)
- António Reis e Margarida Cordeiro - a poesia da terra, p. 55, 57 e 64,
Cineclube de Faro, Faro, 1997."


Fonte

terça-feira, 26 de julho de 2011

Património Imaterial do Douro, Alexandre Parafita


A procura da preservação de parte da identidade de um povo, a memória oral. Memória que em parte já se perdeu devido à extinção de determinados contextos associados às vivências rurais: "perderam-se muitas peças do romanceiro e do cancioneiro porque se extinguiram muitos trabalhos agrários como segadas, desfolhadas, malhadas, rogas, pastoreio; perderam-se muitos contos e lendas porque se extinguiram os fiandeiros e quase já os serões à lareira". No entanto, este livro não pretende ser uma solução de resgate definitiva mas sim um último recurso, pois "nas páginas de um livro os textos tendem a cristalizar", assim como alguns dos mais belos textos da literatura oral tradicional, como os dos cancioneiros, que só ganham realmente sentido na oralidade.

Uma edição cuidada, e deliciosa que se lê de fio a pavio.

Património Imaterial do Douro - Vol, 1Alexandre Parafita
Editor: Âncora
Ano de edição: 2010
Número de páginas: 224
Idioma: Português